Nova FM 103.5MHz

Policial

PM resgata mulher mantida em cárcere há 10 anos por militar do Exército em Anastácio

O JNE apurou que a vítima era casada com o militar há 17 anos e ambos moravam no estado do Amazonas

PM resgata mulher mantida em cárcere há 10 anos por militar do Exército em Anastácio
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Uma mulher de 35 anos que era mantida em cárcere privado pelo marido, um militar do Exército aposentado, de 53 anos, foi resgatada com os filhos, em Anastácio. O resgate aconteceu no fim de novembro, após os familiares da vítima viajarem cerca de 2 mil quilômetros em uma força-tarefa montada por policiais militares do PROMUSE (Programa Mulher Segura).

O JNE apurou que a vítima era casada com o militar há 17 anos e ambos moravam no estado do Amazonas. Em determinado momento, o militar foi transferido para o município de Aquidauana e o casal se mudou para a cidade sul-mato-grossense. Residente em Aquidauana, a vítima passou a ser mantida em cárcere. O casal possui uma filha de 8 anos e um menino de 6, que nunca tinham conhecido nem mesmo a avó materna.

Desde que chegou ao Portal do Pantanal, o militar do Exército proibiu a mulher de manter contato com a família, fazendo ameaças. A família da vítima então descobriu o endereço do casal e um familiar viajou do Amazonas até Aquidauana para tentar levá-la embora, e se deparou com a mulher há uma semana sem tomar banho. Contudo, o militar não deixou que a esposa levasse os filhos. Por isso, ela optou por permanecer no local. Apesar da vítima ter optado por ficar na residência, os familiares temiam pela vida dela.

Após o familiar retornar para o Amazonas, o militar – em posse de um motorhome – saiu da cidade com a mulher e os filhos, indo para a região da Bolívia, onde deixou os familiares da vítima sem notícias por cerca de quatro meses. Porém, a mulher conseguiu avisar a mãe que estava bem.

O homem causava medo nela. Ele alegava que caso ela procurasse a polícia, as autoridades iriam tirar os filhos dela, visto que ele era militar e a esposa ‘não era nada’.

Tempos depois, o casal se mudou para Anastácio, cidade onde a mulher continuou vivenciando o pesadelo. Lá, a mulher não podia sair de casa e sequer falar com seus familiares pelo celular. O aparelho era supervisionado pelo militar.

O fim do pesadelo

Um parente da vítima que reside no Amazonas e também é militar, comentou com uma colega de trabalho sobre a situação que a mulher vivia. Durante a conversa, o familiar relatou que precisava ajudar a vítima, momento em que a colega lhe disse que Mato Grosso do Sul possui o PROMUSE (Programa Mulher Segura). O programa realiza o monitoramento e proteção das mulheres em situação de violência doméstica e familiar.

Assim, a vítima poderia sair do cárcere com ajuda do programa. Então, os dois entraram em contato com a Polícia Militar em Mato Grosso do Sul, que direcionou o caso para o 7° BPM (Batalhão da Polícia Militar) de Aquidauana.

Foi aí que se iniciou uma força-tarefa da PM de Aquidauana para resgatar a vítima e foi descoberta a casa onde a ela morava com o militar e os filhos. As policiais militares do PROMUSE pediram apoio do CRAM (Centro de Referência de Atendimento à Mulher), esperaram o momento em que o homem saiu da residência para abordar a vítima.

Ao chegar na casa, as equipes chamaram pela vítima, mas foi percebido que ela não queria atendê-los, possivelmente por ter medo da polícia, mesmo a policial militar estando à paisana, ou seja, sem farda. Em seguida, um dos integrantes da equipe informou à vítima que a mãe dela é quem teria mandado os policiais irem até lá.

Diante disso, a mulher foi até o portão da residência, momento em que os policiais notaram que a mesma estava tremendo e aparentemente sob efeito de remédios. Na casa, foi percebido uma situação insalubre. A policial militar disse a ela que sua mãe queria que ela fosse embora com as crianças e que iria custear o deslocamento. Neste momento, a filha de 8 anos da mulher pediu que a mãe aceitasse. Porém, o militar havia saído com o filho caçula, então o menor não estava em casa.

Então a militar afirmou que, de alguma forma, iria garantir que o filho voltaria com ela para o Amazonas, mas que ela precisaria confiar no trabalho dela. Contudo, ela ficou relutante e optou por não ir embora.

A policial então conversou com a genitora da vítima e orientou que ela fosse até Anastácio. Depois desse primeiro contato, as policiais do PROMUSE ficaram cerca de um mês em contato com os familiares, que decidiram viajar até Mato Grosso do Sul.

Assim, a mãe e o irmão da mulher saíram do interior do estado do Amazonas e viajaram cerca de 2.100 quilômetros até Anastácio, com apoio da Polícia Militar e CRAM. Ao chegar no município, os familiares foram até a residência da vítima com ajuda da polícia, onde o militar aposentado, não vendo outra alternativa, deixou que a esposa fosse embora, mas afirmou que não deixaria que ela levasse o filho de 6 anos.

Diante da recusa, a policial militar explicou que, mesmo ele sendo pai e não ter registro de boletim de ocorrência em seu desfavor, a mãe tem o direito de viajar e levar os filhos. Então, o homem cedeu e a vítima foi resgatada do cárcere, sendo encaminhada para a delegacia.

Durante o resgate da mulher, foi observado pelas autoridades policiais que o motorhome do militar estava lotado de mantimentos e roupas, apontando suspeitas de que ele estaria prestes a sair da cidade novamente com a esposa e os filhos, já que desconfiava que a família da mulher poderia ir até a cidade.

Na delegacia, foi registrado boletim de ocorrência e uma medida protetiva foi solicitada pela mulher e logo foi deferida pelo Poder Judiciário. Em seguida, a vítima e seus familiares ficaram uma semana em um hotel, custeados pela prefeitura, devido ao alto custo das passagens, até que finalmente viajassem para o Amazonas. A viagem custou cerca de R$ 17 mil reais devido a longa distância entre os estados.

A rede de apoio ainda levou a família até o aeroporto, para que não ocorresse nenhuma intercorrência. Agora mãe e filhos vivem tranquilos com o apoio e cuidado de seus familiares.

De março a novembro de 2024, o Promuse atendeu 87 casos de violência doméstica, em Aquidauana/Anastácio, sendo realizadas 71 prisões em flagrante por descumprimento de medidas protetivas. O programa alcançou 1.515 pessoas.

Veja também